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domingo, julho 13, 2014

Na China moderna, os Naxis tentam manter suas tradições




 
GISELLE PAULO (TEXTO E FOTOS) COM HAROLDO CASTRO

Escondido nos confins do leste Asiático, nos pés dos Himalaias, onde Tibete, China e sudeste da Ásia fazem fronteira, vive uma das minorias étnicas mais instigantes da região, os Naxis. 

É um povo que, devido à dificuldade de acesso à região, ficou completamente isolado do mundo moderno até meados do século XX.

Embora suas origens sejam imprecisas, acredita-se que os Naxis sejam descendentes de uma etnia nômade que habitava o platô tibetano no passado. 

Ao lado da minoria Bai e dos tibetanos, os Naxis foram grandes comerciantes que circulavam por perigosas rotas que iam à Lhasa, no Tibete, e à Índia.

Embora a Revolução Cultural  tenha destruído quase toda sua história, boa parte dos 250 mil Naxis ainda existentes vive na província de Yunnan, no sul da China. 

Lijiang foi uma das principais cidades Naxis e hoje atrai visitantes que querem conhecer essa cultura.
 


Moradores de Lijiang ainda lavam roupas e verduras nos poços d’água espalhados pelas cidades, como faziam os Naxis. Na foto, o moinho de água na entrada da cidade é uma grande atração (Foto: Giselle Paulino)

Na visão Naxi, o mundo seria povoado por espíritos de diferentes formas capazes de prejudicar ou beneficiar os homens. 

Árvores, montanhas, riose lagos possuem alma própria.

O Dongba, espécie de sacerdote médium, é central na cultura Naxi e é o responsável por estabelecer a ligação entre o cotidiano e o mundo divino.

Um aspecto encantador dos Naxis é que, em sua mitologia, o ser humano e a natureza são meio-irmãos, filhos de uma mesma mãe, mas depais diferentes.

 Por isso, os Naxis levam a sério a ideia de que é preciso viverem harmonia com o mundo natural, representado pela figura de uma serpente com cabeça de sapo chamada Shu.

Os Naxis reconhecem que, em suas atividades diárias, como a caça, a pesca ou a extração de madeira,o homem retira a riqueza de Shu. 

Como gratidão, os Naxis dedicam inúmeras cerimônias religiosas à divindade e, em seus festivais, relembram que o homem deve controlar seu apetite para não extrair do meio ambiente mais do que ele poderia devolver.  

Se uma comunidade abusa de Shu, alguém certamente ficará doente ou algo ruim acontecerá.

Em “ForgottenKingdon”, Peter Goullart, viajante russo que viveu em Lijiangnos anos 1940 durante quase uma década, descreve a tranquila vida nessa sociedade pitoresca cheia de superstições, na qual as mulheres comandavam o comércio e tomavam conta do dinheiro da família.

 Os homens, conta Goullart, pediam autorização para suas esposas até para comprar um cigarro.
 


Uma senhora Naxi circula por Lijiang com seu chapeuzinho azul e vestido típico (Foto: Giselle Paulino)
 

Mesmo se muito procurada por visitantes, Lijiang aindamantém o encanto de uma antiga cidade chinesa. 

O cenário é mais pitoresco nos dias ensolarados, quando a montanha Jade Dragon Snow, sagrada para os Naxis,é vista de qualquer ponto da cidade. 

Os Naxis acreditam que, no topo da montanha,havia um portal imaginário com acesso ao paraíso. 

Por ali passariam todos aqueles que cometiam suicídio por amor, prática comum entre os jovens que se rebelavam contra os casamentos arranjados.
 


Lijiangconserva sua arquitetura do passado. O Parque do Lago do Dragão Negro é passeio obrigatório para ver a arquitetura e a beleza dos parques chineses (Foto: Giselle Paulino)


 Uma rua sinuosa de Baisha, típico vilarejo Naxi (Foto: Giselle Paulino)
 

Entre outras lendas e mistérios, a montanha Jade DragonSnow abriga ervas medicinais raríssimas utilizadas no tratamento de inúmeras doenças. 

 Essas plantas foram descobertas por Dr. Ho, um herbalista Naxi de cerca de 100 anos de idade que vive na pequena Baisha, a 20 km de Lijiang. 

Em sua casinha de madeira repleta de ervas, Dr. Ho parece um personagem de conto chinês.

 Famoso por curar pessoas do mundo todo, o médico é capaz de se comunicar em seis idiomas. 

Usando a técnica chinesa de medir o pulso, ele sabe exatamente o que acontece em todos os órgãos do corpo de uma pessoa. 

Em seguida, indicauma receita que nunca falha.

“Ter uma vida pacata, comer de forma simples,sem muita carne, tomar chá de erva uma vez por dia e fazer o que gosta: esta é a melhor receita para uma vida saudável”, afirma Dr. Ho. 

Ao me despedir, ele insiste: “Volte em dez anos para me fotografar novamente. Estarei aqui!”

 Dr. Ho, oherbalista Naxi de 100 anos de idade, adora ser fotografado no pátio de sua casa (Foto: Giselle Paulino)




 



Conheça o mapa da mina das mais belas orquídeas de Ipanema

 Uma orquídea do gênero Phalaenopsis na rua Redentor, entre as ruas Maria Quitéria e Garcia d’Ávila. (Foto: Haroldo Castro/ÉPOCA)

Desde o verão passado, quando voltei a morar no Rio de Janeiro, eu andava pelas ruas internas de Ipanema olhando para cima, em busca de orquídeas floridas.

 A ideia de escrever uma crônica sobre o assunto me perseguiu durante quase um ano.

 Um taxista chegou a afirmar que o movimento havia começado com um porteiro orquidófilo; outro disse que uma competição informal entre zeladores fomentara a reprodução das flores nos troncos das árvores. Mas tudo isso é conversa de taxista!

Cheguei a uma história mais sensata – a que Bruno Pereira me contou, publicada na crônica da semana passada. 

Comerciantes, moradores e zeladores dos prédios foram os que mantiveram a iniciativa viva depois que o primeiro plantio aconteceu, há quase cinco anos e meio, fruto de uma brilhante ideia para melhorar a imagem do bairro.

Também descobri que o coração de Ipanema fora batizado com um nome sedutor: Quadrilátero do Charme.


Imediatamente me dei conta que, para realizar minhas fotos, eu precisaria percorrer todas as 13 ruas e avenidas que conformam o tal do quadrilátero.

 Não seria correto deixar nenhum trecho de fora.
 

Na rua Redentor, uma Phalaenopsis roxa e uma Oncidium amarela contrastam com os ladrilhos vermelhos de um prédio. (Foto: Haroldo Castro/ÉPOCA)
 
Ainda na Redentor, um híbrido Phalaenopsis amarelo sobressai no céu azul de verão. (Foto: Haroldo Castro/ÉPOCA)
  A luz de uma Phalaenopsis branca brilha contra o fundo de uma parede ocre na rua Barão de Jaguaripe, entre Aníbal de Mendonça e Garcia d’Ávila. (Foto: Haroldo Castro/ÉPOCA)
 

Um cacho de Oncidium na rua Alberto de Campos, bem próximo à avenida Epitácio Pessoa. (Foto: Haroldo Castro/ÉPOCA)

Tomei coragem e, com um bloco na mão, percorri 8 km de calçadas no primeiro dia. 

Assim como Bruno fizera em 2007, parei em todas as árvores que continham algum cacho branco, rosa, lilás ou amarelo e anotei o número do prédio e qual espécie de orquídea embelezava gratuitamente a rua.

Todos os quarteirões foram esquadrinhados e, no final, acabei com uma lista dos endereços das árvores mais decoradas, cujos troncos albergam dezenas de pés de orquídeas.

No início, não percorri os quarteirões entre a Aníbal de Mendonça e a Henrique Dumont, pois esta rua estava oficialmente fora do Quadrilátero do Charme. 

Mas conhecendo a vizinhança, me dei conta que seria injusto não visitar a área. 

Percorri mais 2 km no segundo dia e fiz uma dezena de novas descobertas, incluindo a árvore da Bia Lopes e a do zelador Manoel (ambas fotos publicadas na crônica anterior).  

No total, identifiquei quase 100 árvores que valiam a pena serem fotografadas – e visitadas!

No terceiro dia, a chuvinha parou e o sol, mesmo tímido, saiu. 

Aproveitei para fotografar cada uma das árvores selecionadas. Foram mais 10 km de caminhada no Quadrilátero do Charme, ampliado, incluindo agora a avenida Henrique Dumont. 

Nesta época do ano (janeiro e fevereiro), a grande maioria das orquídeas floridas são do gênero Phalaenopsis. 


 Chamadas de orquídeas-borboleta, elas são originárias do sudeste asiático e vêm em todos os matizes de branco, rosa ou violeta.

 As Oncidium, ou orquídea-chuva-de-ouro, nativas da América tropical, também são abundantes. Outras, como a Cattleya, das florestas da América Latina, não estão em floração.

 Das mais de 100 espécies de Cattleya, cerca de 30 espécies são brasileiras.
 

A jaca (Artocarpus heterophyllus) é originária das florestas do sudoeste da Índia. Comum no Parque Nacional da Tijuca, a jaqueira é uma árvore que se adaptou bem ao clima carioca. Este pé vive na rua Redentor, entre Aníbal de Mendonça e Henrique Dumont. (Foto: Haroldo Castro/ÉPOCA)

 

O abricó-de-macaco (Couroupita guianensis), uma árvore nativa da Amazônia, possui flores exuberantes. Mas os porteiros na Barão de Jaguaripe reclamam do cheiro forte e da quantidade de flores que caem no chão. (Foto: Haroldo Castro/ÉPOCA)



Esta tarefa tão meticulosa trouxe resultados interessantes.

 Para aqueles que, um dia, quiserem descobrir as orquídeas de Ipanema, aqui vão minhas conclusões:

• As ruas paralelas à praia e à lagoa – como a Redentor ou a Barão de Jaguaripe – são as que contêm maior número de orquídeas.

• As perpendiculares – como a Aníbal de Mendonça ou a Garcia d’Ávila –, ruas onde a primeira plantação foi realizada em 2007, possuem hoje uma densidade de orquídeas menor que as ruas paralelas.

• A avenida Vieira Souto, na orla, é a que possui menos orquídeas – certamente devido à maresia.

• A rua mais decorada com orquídeas é a Redentor. 

A segunda colocada é a rua Barão de Jaguaripe.

Além do esplêndido espetáculo de ter observado milhares – sim, milhares – de orquídeas, uma boa surpresa foi encontrar, no bairro, outras árvores com frutas ou flores inusitadas. 

Uma pitangueira (agora sem frutos) vive em frente da sorveteria Mil Frutas na Garcia d’Ávila.Conclusão: Ipanema é bem mais do que seus barzinhos badalados, não é mesmo?!

 Boa descoberta. 
Dezenas de bromélias tomaram carona no movimento de decorar as árvores de Ipanema, iniciado com as orquídeas. Este belo pé na Henrique Dumont também foi amarrado por um zelador que quis embelezar a frente de seu prédio. (Foto: Haroldo Castro/ÉPOCA)

Os encantos dos três circuitos do Parque Estadual Ibitipoca em Minas

HAROLDO CASTRO, FELIPE FROSSARD, GUIDO BRUZADIN E JOÃO MAKRAY (TEXTO E FOTOS)
 
As águas translúcidas e com uma coloração avermelhadas do rio do Salto realçam a paisagem do Parque Estadual Ibitipoca (Foto: Guido Bruzadin)

“Uma terra improdutiva, de relevo acidentado, cujo solo é composto basicamente de quartzo e arenito.”

Foi baseando-se nestas observações que os fazendeiros do final do século XIX, devotos à Igreja Católica, entregaram a posse destas terras aos cuidados da Cúria. 

Os padres pouco fizeram além de construir uma pequena capela no topo do Pico do Peão, a 1.720 metros de altitude.

 Somente em 4 de julho de 1973, há 40 anos, o governo do Estado de Minas Gerais demarcou as terras como parque estadual.

Um dos parques mais visitados do Estado, localizado entre os municípios de Lima Duarte e Santa Rita do Ibitipoca, na Zona da Mata de Minas, esta reserva traz belas surpresas, mesmo para quem está acostumado a fazer trilhas pelas montanhas do país. 

Aproveitamos um feriadão para conhecer o parque de 1.488 hectares quase em sua totalidade. O nome do parque significa “serra que estala” – do tupi ibiti (serra) e poca (estala).

 As montanhas e o horizonte vistos de um dos pontos de observação do parque (Foto: Guido Bruzadin)



O Parque Estadual Ibitipoca possui três trilhas, cada um com extensões, altitudes e cenários diferentes. 

O Circuito das Águas é o menor, com apenas 5 km. 

Em forma de um círculo, não exige esforço e apresenta cachoeiras convidativas com boas chances de observar pássaros. 

O ponto alto é a Ponte de Pedra, formação surpreendente onde o rio do Salto, por uma ação de séculos, cavou uma passagem por baixo da rocha.

A Cachoeira dos Macacos também pode ser alcançada por esta trilha, com uma piscina natural que convida a um banho que massageia as costas depois de algumas horas de caminhada. 

A cachoeira é o ponto final do circuito; após passar pela parte de baixo, acompanhando o rio de perto, o visitante agora volta pela parte de cima, tendo outro ponto de vista, agora mais alto do que o rio. 

Mas é o lago das Miragens que mais nos encanta. 

Certamente a coloração vermelha da água, resultado da decomposição das folhas, é o que mais chama atenção de nossas câmeras fotográficas.

O Lago das Miragens, com suas águas vermelhas, foi formado pelo rio do Salto (Foto: João Makray)

 

 A Gruta dos Coelhos é um dos atrativos do Circuito das Águas (Foto: João Makray)

 

O Pico do Peão é o objetivo para aqueles que fazem o segundo circuito. 

 São pouco mais de 5 km para alcançar o topo do morro – aliás, mais um cume abaulado do que um pico pontiagudo – em um percurso total de 11 km. 

A boa surpresa é a Gruta dos Viajantes, que possui uma escada que dá acesso a seu interior. 

O calor e o sol forte do cerrado dão lugar ao frescor e umidade da gruta. 

Usamos uma lanterna já que, após cerca de um minuto de passos dentro da gruta, a escuridão é absoluta.

Diferente de outras grutas do parque, nesta sentimos um vento vindo do fundo da gruta, o que pressupõe a existência de uma saída do lado oposto, possibilidade que instiga a curiosidade de continuar a enfrentar a escuridão. 

Antes do final dos 300 metros de caverna, já ouvimos canários e araras. 

Alguns passos adicionais e avistamos novamente a luz do dia que aparece na segunda boca da caverna. 

O nome certo deveria ser Túnel dos Viajantes, e não apenas gruta.
 

 A paisagem do Parque Estadual Ibitipoca é grandiosa, com vistas da Serra de Ibitipoca, continuação da Serra da Mantiqueira (Foto: João Makray)
 

 As águas dos riachos tem um tom que varia do dourado ao vermelho, devido à decomposição vegetal (Foto: João Makray)


 

O terceiro circuito exige um pouco mais de condicionamento físico: o trajeto ida e volta tem 16 km. 

Por esta trilha, chegamos à Gruta dos Três Arcos, à Janela do Céu e ao ponto mais alto do parque, a Lombada, que fica a 1.784 m.

Acompanhando o pequeno riacho, atravessamos um pequeno cânion que, somado à outros detalhes singulares, fazem deste parque um espaço especial, bem mais do que apenas um local de trilhas e cachoeiras. 

Outro atrativo que chama nossa atenção é a Cascatinha, um pequeno fio d’água que escorre suavemente como uma ducha, às margens de uma prainha de quartzo branco que contrasta com a água vermelho escura, tingida pelo tanino das folhas.
 
Notamos uma presença marcante do IEF (Instituto Estadual de Floresta de Minas Gerais), órgão que controla a entrada ao marque, limitando a entrada de visitantes (300 pessoas durante a semana e 800 nos fins de semana) para garantir a preservação do parque. 

Para aqueles que querem acampar dentro do parque, existe uma área demarcada. 

Quem passa a noite recebe três presentes adicionais: as cores do pôr-do-sol, o amanhecer grandioso e a observação das estrelas, encantos permitidos somente aos que acampam.
 

Trilha para a Janela do Céu, que passa pelo Pico da Lombada, Gruta dos Três Arcos e Gruta dos Fugitivos. Foto realizada com o Photo Sphere do Google e filtro Tiny Planet aplicado (Foto: Guido Bruzadin)




 

 

A magnífica Etiópia, um país singular e cheio de surpresas



Tudo na Etiópia é peculiar: o tempo, a comida, o clima e o relevo (Foto: Haroldo Castro/ÉPOCA)
HAROLDO CASTRO DE ADIS ABABA (TEXTO E FOTOS)

Preparo-me para irà Etiópia pela quinta vez, agoracom um grupo de intrépidos viajantes brasileiros. 

Pretendemos passar a Semana Santa nas igrejas esculpidas de Lalibela.

 Desde minha primeira jornada em 1983, o país me marcou profundamente. Tudo é tão único e tão particular. 

Costumo dizer que a Etiópia – a antiga Abissínia, o país independente mais antigo do continente – tem um sabor eclético; é uma miscelânea cultural onde Arábia, Índia e África fundem-se para criar um país totalmente diferente. 

Na crônica de hoje, menciono três características etíopes únicas: a contagem das horas, o cereal nacional e o planalto central.

Revejo fotos minhas em Adis Ababa, a capital situada a 2.350 metros: sempre apareço com uma camisa de manga comprida e um casaquinho no final da tarde. 

Quando lá estive, em abril, a temperatura variava entre 15º C e 25º C. 

Nada a ver com a África tórrida que quase sempre imaginamos.

De fato, a Etiópia é um país de montanhas. 

Revendo meu Diário de Bordo de 2010, noto que, quando atravessamos a Etiópia de 4x4 em março e abril, sempre estivemos em uma altitude entre 1.300 e 2.400 metros. 

A boa notícia é que nestas alturas o mosquito da malária, uma das piores pragas do continente, não consegue viver. 

Outro ponto positivo é que o clima, apesar do país estar a poucos graus acima da Linha do Equador, é ameno, quase temperado.
 

As terras planas do planalto da Etiópia são férteis e úmidas (Foto: Haroldo Castro/ÉPOCA)


O clima relativamente beneplácito fez com que a população etíope se concentrasse no planalto, região que representa a maior parte do país. 

A população atual é de 94 milhões de habitantes, que vivem em 1,1 milhão de quilômetros quadrados, uma área semelhante ao dobro da Bahia. 

Parece ser muita gente para um espaço tão pequeno! 

Se comparado com a própria Bahia, a densidade populacional da Etiópia é três vezes superior. 

Mas se checamos os números etíopes com os do Estado de São Paulo, a densidade de população na Etiópia é a metade da densidade do Estado paulista.
 

Vendedores e compradores encontram-se no dia de mercado no norte da Etiópia. Muita gente? Talvez seja menos do que dentro de um shopping paulista (Foto: Haroldo Castro/ÉPOCA)

A Etiópia conta o tempo de maneira diferente. 

As horas do dia têm início com o nascer do sol, às 6h00. As outras 12 horas são para a noite.

 Quando são 8h da manhã para nós, são 2h do dia para os etíopes; às 20h, são 2h da noite.

 A Etiópia usa o calendário Juliano da Igreja Cristã Ortodoxa e não o nosso Gregoriano. 

O ano possui 12 meses de 30 dias e um 13º de cinco ou seis dias, dependendo se o ano é bissexto. 

Em números de anos, os etíopes estão “atrasados” quase oito anos (sete anos e nove meses).

 O Ano Novo na Etiópia acontece no nosso dia 11 de setembro, o primeiro do mês local Meskerem. 

Assim, hoje, 12 de fevereiro de 2014 equivale, para os etíopes, ao dia5do mês yekalit(nosso junho) do ano 2006.
 

O teffé um cereal que só cresce na Etiópia; é rico em proteínas e minerais (Foto: Haroldo Castro/ÉPOCA)
 


Na Etiópia, o pão nosso de cada dia é a injira,preparada com o cereal nacional, o teff.

 A planta nativa do planalto etíope é cultivada entre 1.800 e 2.200 metros de altitude. 

A gramínea rende minúsculos grãos avermelhados, ricos em proteínas, cálcio e ferro.

São necessários três dias para que o teff comprado no mercado se transforme em uma injira, durante um processo que começa com a fermentação do cereal na água e acaba na chapa. 

É a fermentação que dá um gostinho um amargo à panqueca etíope. 

A mistura líquida é preparada como um crepe e tem aparência esponjosa.
A pimenta, de várias cores e formas, é encontrada em qualquer mercado (Foto: Haroldo Castro/ÉPOCA)
  
 
Nos restaurantes ou em casa, a injira chega em uma bandeja larga, decorada com pequenas porções de refogados. 

O atkiltbeyeaynetu é um prato com diversas amostras da cozinha etíope, sem nenhum tipo de carne(sou vegetariano).

De um lado, estão alguns vegetais cozidos, chamados atkilt, que não são apimentados.

 Do outro, os wats, os refogados. Estes, sim, levam bastanteberbere, pimenta.

Além da injira que está na base do prato, há sempre uma outra injirapara cada pessoa. 

Para comer, devemos cortar um pedaço pequeno da injira e, com a ponta dos dedos,capturar um pouco da comida. 

Na Etiópia, come-se com a mão direita e não se usa talheres.

Mesmo tendo tradições tão diferentes das nossas, vale a pena conhecer o país!

 
 

Pedacinho do Saara em Merzuga encanta visitantes no Marrocos

HAROLDO CASTRO DE ERFUD, MARROCOS (TEXTO E FOTOS)
 
 
 O deserto do Saara estende-se do Atlântico ao Mar Vermelho, cortando todo o norte da África. Suas dunas de areia são criadas pelo vento.  (Foto: © Haroldo Castro/ÉPOCA)
 
 
Foi amor, paixão à primeira vista. 

Ainda que muito jovem, não consegui conter meus novos sentimentos. 

Suas curvas eram por demais perfeitas, seu encanto tinha o poder de embriagar qualquer um – seja homem, mulher ou qualquer outro gênero.

 Ao amanhecer e ao pôr-do-sol, seu fascínio sextuplicava, sua pele ganhando tons quentes e dourados.

Não falo de qualquer mulher, mas da deusa que dá formas às dunas de areia do Saara. 

Sim, deusa; pois formas tão perfeitas só podem ser criadas por alguma divindade acima do reino humano. 

Divindade esta feminina – a sensibilidade dos traços curvilíneos é atributo da mulher.

Meu primeiro encontro com as dunas do deserto aconteceu há mais de 40 anos, quando conheci o oásis El Oued, na Argélia, a 650 km ao sul da capital. 

O significado da palavra “oued” (em árabe, rio) explica a sedução do lugar.

 Um rio subterrâneo dá vida às areias do Saara e um gigantesco palmeiral verde produz toneladas de tâmaras energéticas e nutritivas. 

Nunca mais me esqueci da paisagem grandiosa.

“Eu sempre amei o deserto. A gente se senta numa duna de areia.

 Não se vê nada. Não se escuta nada.

 E no entanto, no silêncio, alguma coisa irradia...” escreveu Saint-Exupéry em O Pequeno Príncipe

Concordo com o autor: a beleza do deserto é invisível!

Por isso, em minhas andanças, não poupo desertos. 

Do Gobi na Mongólia à Costa do Esqueleto na Namíbia. Mas o Saara é O DESERTO, o maior de todos, o mais adorado e o mais temível. 

Quem leu Tuareg do espanhol Alberto Vazquez-Figueroa (recomendo vivamente) suou frio ao acompanhar a travessia da Terra Vazia de Tikdabra pelo targui Gacel. 

O Saara é lugar de extremos.
 
O animal mais adaptado ao deserto é o dromedário, podendo ficar duas semanas sem beber água (Foto: © Haroldo Castro/ÉPOCA)

Na minha última viagem ao Marrocos, fui até o extremo oriente do país para conhecer uma nesguinha do Saara.

 O motorista da 4x4 que cruza a planície desértica de pedrinhas explica que estamos apenas a 22 km da fronteira com a Tunísia. 

“Aquelas montanhas já estão fora do Marrocos”, afirma. “Mas a surpresa não vem de lá, ela vai aparecer na nossa frente, são as dunas de Merzuga.”

Com razão, dez minutos se passam e a terra plana acinzentada começa a ganhar outros contornos. Montes de areia alaranjada, quase vermelha, aparecem como um capricho de algum vento brincalhão.

 As faixas de areia se multiplicam, ganham volume, crescem em altura e se transformam em dunas. Logo, estamos cercados por um pequeno mar de areia, o caminho acaba. 

“Eu paro aqui. Poderia subir esta duna de carro, mas será mais divertido você fazer isso em um dromedário”, diz o motorista.
 
Quatro animais já selados nos esperam. 

Eles estão ajoelhados para que possamos montar com mais facilidade.

 “Segure bem a sela na hora que o animal ficar de pé”, afirma o cameleiro Hassan. 

A subida, em duas etapas, como uma gangorra, seguindo os movimentos das patas traseiras e das dianteiras, é brusca. 

O desavisado perde, por poucos segundos, seu sentido de orientação.

Temos poucos minutos antes do pôr-do-sol e quero aproveitar a luminosidade da hora mágica para fotografar o “erg”, o mar de areia de Merzuga.
 
Animais e pessoas sempre preferem caminhar pela crista da duna (Foto: © Haroldo Castro/ÉPOCA   )
Hassan  Ogner é um dos cameleiros que nos acolhe em Merzuga (Foto: © Haroldo Castro/ÉPOCA   )
 
Entardecer nas dunas de Merzuga, no extremo oriental do Marrocos.  (Foto: © Haroldo Castro/ÉPOCA   )
 
 habitantes do deserto não instalam suas habitações, mesmo se provisórias, no “erg”, na areia fofa. Preferem deixar as areias incólumes para os visitantes e morar no deserto mais firme, o de pedras, chamado “reg”. 

Assim, na volta de Merzuga para Erfud, passamos por diversas moradias de beduínos, construídas como tendas ou casebres.

 Embora vivam um quotidiano difícil, os beduínos sempre saúdam marroquinos e visitantes com um sorriso de boas-vindas, orgulhosos de seu modo de vida.
 
Uma jovem beduína, carregando um bebê nas costas, corre em direção à camioneta de turistas para tentar vender algum artesanato (Foto: © Haroldo Castro/ÉPOCA   )
  
 

 Um beduíno prepara a sela de um dos dromedários. Os animais são essenciais para transportar pessoas e caragas (Foto: © Haroldo Castro/ÉPOCA   )



Uma senhora beduína com seus dois filhos transporta seus pertences em um asno, outro animal importante nas regiões áridas (Foto: © Haroldo Castro/ÉPOCA   )






A beleza da China rural, desconhecida para os ocidentais

 
GISELLE PAULINO (TEXTO E FOTOS) COM HAROLDO CASTRO
Com tradição rural forte e cultura gastronômica milenar baseada nos produtos do campo, a China é uma viagem de cores e sabores (Foto: Giselle Paulino)

 

Sabemos que a China cresce e se moderniza de forma assustadora. 

Em 2012, com 51% das pessoas morando nas cidades, o país mais populoso do mundo se tornou, finalmente, urbano. 

Cidades como Chengdu, no sul do país, dobraram de tamanho nos últimos dez anos, colocando pressão no meio ambiente. 

Além das conhecidas Beijing e Shanghai, outras capitais do país parecem uma São Paulo, com trânsito caótico, poluição e prédios que não param de crescer.

No entanto, a China tem encantos escondidos. Suas regiões mais remotas são habitadas por minorias étnicas que celebram suas colheitas com longas festas. 

Essas populações acreditam que o grão possui alma e que o agrotóxico é ovilão das safras perdidas. 

Essas comunidades levam às cidades produtos locais, como raiz de flor de lótus, girassol, broto de bambu, cogumelos selvagens de diversos tamanhos para vender. 

 É um verdadeiro festival decores e de aromas.
 

Restaurantes da pequena Dali, em Yunnan, exibem diversidade de vegetais como cogumelos, flor de banana e broto de bambu que podem ser escolhidos na hora para compor um prato (Foto: Giselle Paulino)
Em 2013, os dois meses que planejei passar na China logo se transformaram em seis.

 Para quem se interessa por gastronomia e nas relações do homem com seu alimento, o “país do meio” é fascinante.

 Durante esse tempo,procurei sair fora do circuito turístico convencional e fui em busca de uma China rural, bela e colorida,  da qual pouco se fala.

Os chineses adoram comer. 

Para eles, o momento das refeições é sagrado. 

 Por mais simples que seja a família, diversos potinhos são trazidos à mesa com ingredientes variados, alguns difíceis de decifrar.

 Na parte oeste do país, por exemplo, provaros produtos de leite de iaque, bovino de pelos longos que vive no planalto tibetano, é uma experiência inesquecível. 

 O sabor e o cheiro são fortes e marcantes.

As feiras de rua são passagem obrigatórias para os visitantes.Ao contrário do que dizem, é absolutamente possível ser vegetariano no país.  Aliás, descobri que o hábito de comer qualquer tipo de animal– algo bizarro para o ocidental – faz parte apenas da culinária cantonesa, típica da região de Hong Kong.
 

A berinjela é o ingrediente principal utilizado emum prato vegetariano que imita o sabor do peixe (Foto: Giselle Paulino)
 

A feira de rua emLijiang, na província de Yunnan, é uma antiga tradição que se mantém por décadas, talvez séculos (Foto: Giselle Paulino)




Em uma manhãmeio chuvosa, saí com a equipe da CURA, ONG chinesa local que trabalha na despoluição dos rios da cidade de Chengdu. 

A meta era pedalar seis horas até chegar ao vilarejo Anlong, comunidade formada por 40 famílias de agricultores que, com apoio da CURA, passaram a adotar um modelo de produção natural e orgânico.

Apesar de haver ciclovias em toda a cidade, se locomover de bike  em um lugar como Chengdu é uma ideia insana. 

Ônibus, caminhões, carros e motocicletas surgem de todas partes. 

É preciso redobrar o cuidado. 

A confusão da rua desviava minha atenção do grupo que precisava seguir e quase mesclava, sem dificuldades, entre outros chineses em duas rodas.

 Uma vez por mês, a CURA faz esse trajeto com moradores de Chengdu com a intenção de levar pessoas para conhecer  e valorizar a produção orgânica.


A cidade mal termina e já estamos em Anlong, um claro sinal do avanço das cidades sobre as populações rurais.

O cenário é bucólico e remete a uma China do passado, com casinhas antigas e homens e mulheres que trabalham na terra. 

Nos últimos anos, estudos demonstraram que não apenas o lixo das indústrias contaminavam as águas dos rios, mas também o agrotóxico das lavouras. 

 Essa constatação fez a CURA ampliar o foco de seu trabalho e envolver os agricultores do entorno da cidade nos processos de limpeza da água.

 

No vilarejoAnlong, produtores orgânicos continuam vivendo da terra e resistem ao avanço da urbanização (Foto: Giselle Paulino)
 

Em Anlong, foram introduzidos digestores anaeróbios que convertem o resíduo dos porcos e aves em gás metano para cozinhar e produzem fertilizante natural para as hortas. 

Também foram criados banheiros secos e sistemas naturaisque usam plantas, pedras e areia para limpar e reutilizar a água.
Certamente, Anlongé um pequeno oásis no meio de uma economia moderna rodeada por shoppings.  

Para fazer alguma diferença marcante para os rios de Chengdu, o modelo precisa se multiplicar até criar escala.

 Isso ainda não aconteceu. 

No entanto, Anlong se tornou  um modelo de agricultura sustentável e passou a ser visitada por pessoas de todo o país e por outros agricultores da província curiosos pelo sucesso das plantações orgânicas.

Ninguém sai de lá sem um potinho de deliciosas iguarias artesanais produzidas pelos moradores, como o mel orgânico eo“lajiaoyou”, famoso tempero apimentado, base da gastronomia chinesa.

Com essa riqueza e diversidade, é fácil constatar que a China possui uma das mais saborosas gastronomias do mundo. 

Até mesmo para uma vegetariana, como eu.
 

LianJian, da fazenda orgânica HaoBao, em Yunnan, mostra uma flor de girassol gigante com sementes orgânicas prontas para consumo (Foto: Giselle Paulino)
 








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Advogado alegou que prisão do pastor faz parte de ‘conspirações para destruir sua imagem’. Por Thauany Melo, g1 Goiás 07/04/2024 04h00.    P...