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Aproveitamento do caroço de açaí

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sábado, dezembro 17, 2016

Mineradora: Vale detona pré-história amazônica


 

Texto: RONALDO BRASILIENSE

Fotos: Wanderley Pozzebon

Especial QuidNovi.com.br

Maior mineradora de ferro do planeta, a brasileira Vale tem batido recordes de produção em sua principal jazida de exploração, na Serra dos Carajás, no sul e sudeste do Pará, mas vem nas últimas décadas detonando parte importante da pré-história da Amazônia, destruindo centenas de cavernas de puro ferro que, entre 10 mil e 11 mil anos atrás, serviram de morada aos primeiros habitantes da região. A destruição consentida das cavernas, realizada nas barbas do Poder Judiciário, do Ministério Público Federal, da União e do governo do Pará, com a conivência e omissão da imprensa brasileira, vem sendo acompanhada pari passu por uma das maiores instituições de pesquisa da Amazônia, o Museu Paraense Emilio Goeldi, com sede em Belém. Desde a década de 90 do século XX o Museu Goeldi mantém em Carajás o Projeto Arqueológico de Carajás (PACA), comandado por um dos maiores e mais conhecidos arqueólogos da Amazônia, o professor Marcos Magalhães. Sob a regência de Magalhães, o PACA comprovou a destruição pela Vale da Gruta do Gavião às vésperas da
“Projeto Arqueológico de Carajás comprovou a destruição da Grupa do Gavião às vésperas da Conferência da ONU, a Rio-92”
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Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio-92), num escândalo escondido pela grande imprensa mundial. De lá para cá, a Vale – maior multinacional de minérios do Brasil – só fez aumentar o ritmo da destruição das cavernas, destruídas com explosões e gigantescas pás mecânicas, para produzir o ferro de grande ter que garante à Vale o título de maior exportadora brasileira, enviando seu principal produto para os mercados asiático – China e Japão, principalmente – europeu e norte-americano. “Se nada for feito, essas cavernas vão desaparecer, com um dano incalculável à pré-história amazônica”, pondera o arqueólogo Marcos Magalhães (leia entrevista a partir da página 16), que tem discutido há anos com a direção da Vale caminhos e alternativas para se preservar algumas das cavernas que deram abrigo aos, digamos assim, primeiros “amazônidas”. Na Serra Sul no corpo do mega Projeto S11D, um testemunho do rico patrimônio natural e cultural formado pelo conjunto de cavernas posicionadas na borda do lago denominado “Violão”, muitas com vestígios de fragmentos de artefatos arqueológicos na superfície, uma fauna cavernícola bem diversificada, vários tipos de ecossistemas, exemplares da flora endêmicos, fato não registrado em outras áreas, o que eleva o local a um status de um  verdadeiro “santuário ecológico”.
“Se nada for feito, essas cavernas de Carajás vão desaparecer, com um dano incalculável à pré-história amazônica”
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O presidente da Sociedade Brasileira de  Espeleologia, Marcelo Rasteiro, diz que  a instrução normativa que rege a  proteção de cavernas deverá ser modificada.  “As instruções normativas  passam  por um processo de revisão a cada dois  anos. A briga é entre os  que querem  preservar as cavernas e os  empreendedores querendo fazer  seus  empreendimentos”, disse. Os resultados  do obrigatório Estudo de  Impacto  Ambiental -Relatório de Impacto Ambiental  (EIA-Rima), embora  contratado pela  Vale, não foram considerados favoráveis à  mineradora.  Com cerca de cinco mil  páginas – em seis volumes, o documento foi  elaborado pela Golder Associates, de São Paulo. A empresa lista as cavidades  que deverão ser destruídas no corpo D de Serra Sul. “O impacto potencial nessas 106 cavidades foi avaliado como real, de natureza negativa, de duração permanente, incidência direta, de média longo prazo, de ocorrência irreversível, pontual, de alta importância, de alta magnitude e, portanto, de alta significância”, diz o texto. A existência de “testemunho de interesse arqueológico da cultura paleoameríndia do Brasil” é uma das condições para a classificação da caverna como de relevância máxima, ou seja, protegida da destruição. Se a característica for rebaixada no quesito relevância, numa eventual mudança na regulação, a cavidade poderá ser destruída. Pela proposta da Vale, em situações assim, todo o material arqueológico de importância seria retirado, em uma operação conhecida internacionalmente como “de salvamento”. A empresa se comprometeria ainda a desenvolver ações mitigadoras e, se possível, preservar cavernas mais afastadas das áreas principais de mineração. Vale não se pronunciou oficialmente sobre a questão. O Departamento de Comunicação Corporativa e Imprensa da mineradora tem se limitado a divulgar que a empresa “ainda está aprofundando os estudos ambientais relativos neste período fazia parte do território do município de Marabá, pois ainda não havia sido criado o então município de Parauapebas. Foram realizados inicialmente estudos mais detalhados de geologia, climatologia e biologia das já conhecidas Grutas do Gavião (PA-AT 69), N1 e da Onça, além da Gruta dos Anões, descoberta durante a prospecção na encosta leste do platô N1, área de exploração de minério de ferro pela Vale.

A Gruta do Gavião revelou, à época, através de detalhados estudos arqueológicos, o mais antigo sítio arqueológico da Amazônia – com datação de oito mil anos – descoberta de enorme importância, pelo fato de evidenciar uma ocupação humana de grupos caçadores-coletores pré- -ceramistas, na ocasião pouco conhecidos na Amazônia. A gruta do Gavião foi destruída pela exploração mineral: transformou-se em pó, literalmente, por se encontrar na frente da lavra da mina de minério de ferro que estava sendo explorada pela então estatal Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), mas antes da detonação o Departamento de Arqueologia do Museu Emilio Goeldi conseguiu realizar o salvamento arqueológico. Até pouco tempo atrás existia uma maquete no parque Zoobotânico de Carajás da Gruta do Gavião, o que de nenhuma forma recuperava esta perda irreparável para o patrimônio histórico/ cultural da Amazônia. Em 2004 foi firmado convênio entre a Vale e a FCCM visando atender a Legislação de Proteção ao Patrimônio Cultural Nacional e Ambiental. Foi quando o GEM iniciou as atividades espeleológicas na Serra dos Carajás, mais especificamente na região conhecida como Serra Sul no Corpo D e surpreendeu a comunidade espeleológica com o início da descoberta de centenas de cavernas e grutas inseridas em um tipo de rocha pouco conhecida, o minério de ferro e a canga.
 As cavernas se tornaram um impedimento para a exploração imediata do maior  projeto de exploração de ferro da Vale para os próximos 40 anos – com uma  mina estimada em 3,4 bilhões de toneladas do minério – que a inclui entre as  maiores reservas mundiais a céu aberto descobertas no mundo, localizada na  vertente sul da Serra de Carajás, no sudeste do Pará. RB


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Mudanças na legislação só beneficiaram a Vale Qualquer impacto em cavernas localizadas em sítios arqueológicos somente poderá ocorrer mediante processo de licenciamento ambiental, mas isso está sendo ignorado em Carajás

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Uma forma para viabilizar a exploração das jazidas de ferro da Serra Sul, em  Carajás, no sudeste paraense, foi a alteração do Decreto 6.640 de 07 de  novembro de 2.008 que modificou significativamente o status jurídico referente à  proteção das cavernas brasileiras. Antes, toda caverna era protegida pela  legislação brasileira. Com a mudança, acrescentou-se uma classificação das  cavernas segundo quatro graus de relevância: máximo, alto, médio e baixo. Os  parâmetros que definem o grau máximo de relevância encontravam-se esboçado  no referido decreto, que previa conservação integral da cavidade inserida neste  contexto. Os critérios para definição dos graus de relevância alto, médio e baixo,  por sua vez, foram definidos na Instrução Normativa nº. 2. As cavernas  classificadas como de relevância média e alta poderiam ser impactadas – parcial ou integralmente – mediante compensação ambiental a ser definida pelo órgão ambiental. Cavernas de baixa relevância poderiam ser impactadas sem compensação. Qualquer impacto em cavernas somente poderá ocorrer mediante o processo de licenciamento ambiental (Art. 4 do Decreto 6.640). Considerando o total de 172 cavidades estudadas apenas na área do Projeto S11D, um investimento de US$ 17 bilhões no município de Canaã dos Carajás, o maior da história da Vale (a área ainda engloba os corpos A, B e C) os estudos de análises de relevância das cavernas, integrando os atributos físicos/histórico-culturais e biológicos, apontaram que 15 cavernas foram classificadas como de relevância máxima, representando 9% do total, o que praticamente inviabiliza o projeto. Para o então coordenador de licenciamento do Centro Nacional de Arqueologia do Iphan, Rogério José Dias, se fosse constatado, por meio de estudos científicos, que as cavernas da Serra Sul de Carajás tinham importância histórica, o maior projeto de mineração da Vale na Serra dos Carajás – justamente o SD11, que entra em operação ainda este ano – correria o risco de jamais vir a ser implantado. “Se houver sítios com características significativas, vamos dizer à Vale que o projeto é inviável”, afirmou Rogério Dias, anos atrás, antes de Inês ser morta, para usar a expressão do poeta português Luiz de Camões. No caso das cavernas, a Vale identificou 187 delas na área do S11D, das quais 16 de máxima relevância (os graus de relevância são determinados com base em características físicas e no material arqueológico encontrado nas cavidades). Estas serão integralmente preservadas. No entanto, haverá “impactos negativos irreversíveis em 35 cavidades de alta relevância”.
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Segundo Martins, há apenas três ou quatro cavernas na Serra Sul de Carajás onde habita uma espécie de morcego chamada Natalus, e uma delas está na área do projeto S11D. Para compensar as cavernas que serão suprimidas, a Vale terá que preservar 70 cavernas da mesma categoria em outra região, na Serra da Bocaina, área contígua à Flona. — São cavernas com as mesmas características. A ideia que estamos discutindo com o Ibama é a possível extensão da unidade de conservação da Flona para a Serra da Bocaina. Já compramos 2.700 hectares lá, para compensar os cerca de 2.700 hectares de área que o S11D vai ocupar — diz Rodrigo Dutra, gerente de Meio Ambiente Ferrosos, Ferrovia e Porto da Vale. Segundo a Vale, a área que será desmatada para o S11D inclui 37% de pastagem, 34% de savana (ou canga) e 27% de floresta. Martins demonstra preocupação com a savana que será suprimida, pois essa configuração de canga no meio da floresta tropical é única no país.
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A Vale diz que, com o S11D, a atividade mineral em Carajás ocupará 3,3% dos  4.119,5 Km² da Flona, incluindo savana e floresta. O problema, para Martins, é  que boa parte dessa ocupação se dará sobre a canga e, com o S11D, 30% dessa  vegetação estariam comprometidos. — Meu receio é que, se a gente não  conseguir impor limites, acabe extinguindo todo um ecossistema. Defendemos  um zoneamento para que tenhamos clareza dos riscos. RB

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Ibama: preservação em megaprojeto

Na Floresta Nacional de Carajás (Flona), onde o Projeto S11D está sendo implantado pela Vale, há 943 espécies de vertebrados, que bebem água nas lagoas batizadas de Violão e Amendoim

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Manobrando politicamente, a Vale conseguiu junto ao Ibama a emissão da Licença de Instalação do projeto de minério de ferro S11D, na Serra Sul de Carajás (PA), o maior da história da mineradora e da indústria mundial da mineração mundial. Encravado no meio da Floresta Amazônica, no sudeste paraense. o projeto S11D exibiu os desafios ambientais da magnitude dos investimentos necessários para tirá-lo do papel. Serão US$ 19,6 bilhões, dos quais US$ 8 bilhões na mina e em uma unidade de processamento e US$ 11,6 bilhões em logística. Para que esses recursos sejam executados, no entanto, a Vale precisaria cumprir uma série de condicionantes impostas pelo órgão ambiental relativas à preservação de lagoas e cavernas que, numa primeira avaliação da companhia, poderiam comprometer metade da reserva considerada no cálculo de viabilidade econômica do projeto. O Projeto S11D tem reservas provadas e prováveis de 4,2 bilhões de toneladas de minério de ferro. O desafio da Vale, especialmente no caso das lagoas, é mantê-las com uma área de preservação em seu entorno, possivelmente menor que a determinada pelo Ibama. Na Floresta Nacional de Carajás (Flona), onde o S11D será implementado, há 943 espécies de vertebrados. Muitas bebem água nessas lagoas, batizadas de Violão e Amendoim. Sua importância deve-se ao fato de servirem como um reservatório perene para matar a sede da fauna local, num lugar onde boa parte das lagoas some no período seco. Como estão no topo da serra e distantes dos lençóis freáticos, são abastecidas pela água da chuva. Por isso, uma das 20 condicionantes que constam da LI é que sejam preservadas as lagoas e as áreas de recarga (que ficam em torno das lagoas, por onde a chuva escorre até alcançá-las). A distância mínima entre a borda da lagoa e a cava que será aberta pela Vale para extrair o minério deve ser de 500 metros, segundo o Ibama. A Vale deu entrada no pedido de licença para o S11D em novembro de 2009. No seu estudo de impacto ambiental (EIA-Rima) estava prevista a exploração de minério em área que, na avaliação do Ibama, poderia interferir nas lagoas, além da supressão de dezenas de cavernas e mais de mil hectares de vegetação — entre floresta e canga, que é a vegetação típica de áreas com afloramentos de minério de ferro. Em seu parecer técnico, o Ibama recomendou que as lagoas e as áreas de recarga fossem preservadas, e que fosse respeitado o limite de 250 metros de distância das “cavernas de máxima relevância”. Na sua resposta ao órgão ambiental, a Vale informou que “as perdas de reserva de minério de ferro em decorrência da obrigatória manutenção dos perímetros de proteção das cavidades de relevância máxima e as áreas de contribuição das Lagoas do Violão e do Amendoim, representariam uma redução (…) que corresponde a, aproximadamente, 52% de toda a reserva considerada para a viabilidade econômica do Projeto Ferro Carajás S11D”. (…) “Tal fato representaria o comprometimento da viabilidade econômica do Projeto Ferro Carajás S11D”, disse em documento, disponível na internet, encaminhado ao Ibama. A resposta da Vale é anterior à emissão da Licença Prévia (LP, emitida em junho de 2012) e da LI, emitida no início deste mês. As recomendações do Ibama foram mantidas nas duas licenças. Mas o órgão ambiental abre uma brecha para flexibilização da condicionante relativa às lagoas, ao dizer que tal restrição “será objeto de avaliação quando da conclusão de estudos de funcionalidade ecológica”. A Vale prevê concluir os estudos até o fim deste ano e informa que os primeiros cinco anos de lavra ocorrerão na porção leste da mina. Como as lagoas estão na outra ponta, ao menos por esse período, o limite de 500 metros será respeitado. — As lagoas são de extrema importância para a região. Não podemos correr o risco de perdê-las — diz Frederico Martins, crítico do projeto e chefe da Flona, unidade de conservação ambiental mantida pelo ICMBio, em parceria com a Vale. RB
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S11D, maior projeto da história da Vale, destrói os sítios arqueológicos

Mais preocupada em aumentar a produção de minério de ferro de Carajás para compensar a queda dos preços do minério no mercado internacional, Vale detona sítios arqueológicos milenares

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Idealizado para ser a redenção da Vale nos próximos trinta anos, capaz de  aumentar a produção de minérios de ferro da empresa em 90 milhões de  toneladas anuais, em seu esforço exportador para compensar a queda dos  preços do ferro no mercado internacional, o Projeto S11D – um investimento de  US$ 17 bilhões – provocará danos irreversíveis em dezenas de sítios  arqueológicos milenares, já identificados na Serra Sul, de Carajás, no sudeste  do Estado do Pará. A inauguração do projeto S11D ocorre ainda neste segundo  semestre, no município de Canaã dos Carajás, o que mais gerou empregos no  Brasil, proporcionalmente, em 2015. Quando estive operando com 100% de sua  carga, o S11D terá capacidade para praticamente duplicar a atual produção  de Carajás – produção que deverá ser atingida de forma gradual ao longo dos próximos anos. Se é um exemplo mundial de tecnologia exploratória de ferro, o S11D é um desastre em termos de preservação do meio ambiente e da cultura milenar da região, demolindo sem dó nem piedade sítios arqueológicos onde viveram os primeiros amazônicos, há 11 mil anos, destruindo cavernas e registros históricos. Segundo a direção da Vale, já no fim de janeiro passado foi ligado o Transportador de Correia de Longa Distância (TCLD), com 9,5 quilômetros de extensão. O TCLD integra uma das principais soluções tecnológicas do S11D – o chamado sistema “truckless”-, composto também por escavadeiras e britadores, que permitem substituir os caminhões fora de estrada utilizados nas minas. O sistema introduzido pela Vale vai permitir reduzir em 70% o consumo de óleo diesel e em 50% as emissões de gases de efeito estufa, segundo a mineradora. Mas, antes mesmo do S11D entrar e operação, a Vale bateu recordes de produção de minério de ferro em Carajás – alcançando 77,5 milhões de toneladas no primeiro trimestre de 2016, o que representou a maior produção para um primeiro trimestre de sua história. Com um detalhe: a produção da Serra dos Carajás alcançou um recorde de produção para um primeiro trimestre de 32,4 milhões de toneladas, um aumento de 4,9 milhões de toneladas (ou 17,7%) em relação ao primeiro trimestre de 2015, principal – mente por causa do forte desempenho das minas de N4WS e N5S. Segundo a mineradora, nos pá – tios da usina, onde será estocado o mi – nério de ferro, os equipamentos estão em fase final de montagem. Serão 14 máquinas de grande porte que farão a movimentação do produto. A mina, por sua vez, está com sua terraplanagem concluída e as máquinas do sistema “truckless” estão sendo montadas. No total, quatro sistemas serão construídos no local. No ramal ferroviário, que liga – rá o S11D à Estrada de Ferro Carajás (EFC), 23 quilômetros de linha férrea estão em fase de alinhamento. Trens de construção operam no transporte de trilhos e dormentes para a montagem da grade ferroviária nos demais trechos. O ramal terá 101 quilômetros de extensão e o fim das obras está pre – visto para agosto de 2016. Por este novo ramal ferroviário serão encaminhados ao porto da Ponta da Madeira, em São Luís, Maranhão, milhões de toneladas de minério de ferro destinados ao exterior, principalmente para a China – maior cliente da Vale. Lá, na Chi – na, ficarão estocadas em montanhas de ferro os últimos resquícios dos nossos ancestrais, uma tragédia sem precedentes para a pré-história da Amazônia.
“Se é um exemplo mundial de tecnologia exploratória de ferro, o S11D é um desastre em termos de preservação do meio ambiente e da cultura milenar da região”
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“É fundamental que os sítios sejam preservados”

Coordenador do Projeto Arqueológico de Carajás (PACA), o arqueólogo Marcos Magalhães, do Museu Paraense Emilio Goeldi revela, nesta entrevista exclusiva, que a preservação dos sítios arqueológicos descobertos na Serra dos Carajás é fundamental para que as futuras gerações tenham conhecimento de como viviam os primeiros habitantes da Amazônia, há 11 mil anos.


PEF – Professor Magalhães, resumidamente o que conta o livro “Amazônia Antropogênica”?
MARCOS MAGALHÃES – Insere a Carajás na arqueologia da Amazônia através de uma proposta teórica com hipóteses testadas em campo. Essa teoria propõem, filosófica e cientificamente, a divisão histórica da ocupação humana da Amazônia antes da conquista em dois longo períodos: o da Cultura Tropical iniciada desde 11000 anos atrás, representada por populações nômades que viviam da caça, da coleta, da pesca e da seleção e manejo de diversas planta. Com o tempo, foram capazes de iniciar a domesticação de algumas e, inclusive, mais tarde, no cultivo delas; este período que durou aproximadamente 6000 anos, foi sucedido pelo o da Cultura Neotropical. Assim, cerca de 5000 anos atrás as populações amazônicas evoluíram para sociedades sedentárias que faziam uso sistemático do cultivo de plantas domesticadas e do manejo de grandes extensões de florestas. Elas constituíram culturas social e poli Coordenador do Projeto Arqueológico de Carajás (PACA), o arqueólogo Marcos Magalhães, do Museu Paraense Emilio Goeldi revela, nesta entrevista exclusiva, que a preservação dos sítios arqueológicos descobertos na Serra dos Carajás é fundamental para que as futuras gerações tenham conhecimento de como viviam os primeiros habitantes da Amazônia, há 11 mil anos. Politicamente complexas e seu processo civilizador só chegou ao fim com a colonização europeia. O grande legado da Cultura Neotropical foi o manejo de grande extensões de florestas, as tornando verdadeiros artefatos sociais, repletas de plantas para as mais diversas atividades. Por conta disto, possivelmente, mais de 60% das florestas conhecidas na Amazônia são de origem humana.
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PEF – Qual a importância dos sítios arqueológicos de Carajás para a história da arqueologia na Amazônia?
MAGALHÃES – Os sítios arqueológicos de Carajás, especialmente os mais antigos, reúnem evidências de que o Homem desde a sua chegada na região e de modo cada vez mais crescente, usava recursos da floresta. Isto é contrário ao que se pensava sobre a Amazônia: que seria indomável, um inferno verde, escassa de recursos e inadequada para populações sem agricultura sistemática. Pois bem, os sítios mais antigos de Carajás mostram que o Homem superava uma possível escasses natural através da seleção e dispersão de espécies úteis concentradas em suas áreas de circulação social e cultural.
PEF – A datação da caverna da Capela – 11.600 anos – é a mais antiga já encontrada na região?
MAGALHÃES – A Gruta S11D47 ou Gruta da Capela é, até agora, o sítio arqueológico mais antigo de Carajás. Não é o mais antigo, mas sem dúvida, está entre os mais antigos da Amazônia. Com uma vantagem, foram obtidas 8 datações no mesmo sítio com mais de 11000 anos. Ou seja, não dá para duvidar da sua antiguidade.
PEF – Como viviam os primeiros “amazônidas”: eram caçadores/coletores ou já tinham agricultura e criação de animais? MAGALHÃES – Os primeiros “amazônidas” viviam da caça, da coleta e da pesca. Mas foi através da coleta de plantas que eles começaram a perceber que elas cresciam a partir de sementes e que frutificavam cada ano a partir de determinado nível de crescimento. Como eles levavam as plantas preferidas de um lugar para outro, acabaram por fazer um seleção cultural de espécies, contribuindo firmemente para a distribuição geográficas delas. Além, é claro, de terem ampliado a distribuição delas através de trocas com povos vindos de outras regiões. Com o tempo a seleção cultural resultou no aprimoramento de algumas e na domesticação de outras. Isto levou tempo, mas quando foi popularizado eles puderam conhecer as vantagens do cultivo, especialmente em áreas mais adequadas, onde os solos eram naturalmente férteis e não alagáveis. Foi o uso regular de plantas cultivada, por sua vez, que levou as populações pioneiras a um novo patamar histórico, o da Cultura Neotropical. Os animais não foram domesticados, mas eram feitos currais em terra e em igarapés onde diversos animais eram confinados, como porcos, tartarugas e alguns peixes. Esta prática está mais relacionadas às populações da Cultura Neotropical, por serem mais sedentárias.
PEF – Qual o futuro dessas cavernas encravadas nas jazidas de ferro da Serra dos Carajás, em área de exploração mineral da Vale?
MAGALHÃES – Elas dependem da evolução da mina. De modo geral as consideradas de importância máxima, quer espeleológica ou arqueologicamente, são protegidas. No entanto, o critério para definir a importância de um sítio só pode ser alcançado depois dele ser escavado. Para complicar, muitas vezes uma cavidade aparentemente insignificante abriga um tipo de manifestação cultural bastante peculiar, revelando tratar-se de um sítio cerimonial. Assim, a melhor coisa a fazer é o estudo preventivo dos sítios, estabelecendo critérios territoriais de importância. Feito com antecedência, o planejamento de avanço da mina (no caso de Carajás) pode ser associado ao conhecimento arqueológico da região, sem prejuízo para ambos.
PEF – O senhor defende a preservação desses sítios arqueológicos e cavernas de Carajás. Como isso pode ser feito? MAGALHÃES – Sim! É fundamental que os sítios considerados mais significativos (e para isto temos que estabelecer critérios bem definidos, pois há várias equipes de arqueólogos trabalhando lá) sejam preservados. O estudo antecipado deles (isto é, antes do planejamento da implantação ou expansão da mina ou estruturas relacionadas) é importante para podermos identificar entre os sítios, aqueles que uma vez preservados, também preservem a evolução histórica das populações que lá viveram. Lembre-se que foi através da arqueologia que descobrimos a antiguidade da origem antrópica das florestas amazônicas e a importância da sua biodiversidade seletivamente voltada para as necessidades humanas. E este conhecimento vale tanto quanto o ferro retirado de lá. (RB)

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